Dos motivos de se acreditar na vida

Há dois anos o carpinteiro Haroldo Lucena (49) e a missionária Maricelma da Silva (31) entraram no projeto Pró-vida. Os dois são pais de Mateus e Ruhama, hoje com 2 anos e dois meses. Eles são gêmeos univitelinos da mesma placenta, mas enquanto Mateus é uma criança normal, Ruhama apresenta uma má formação congênita.

“Desde o início da gravidez nós sabíamos da situação da Ruhama. Os médicos não nos davam nem 1% de chance de que ela pudesse sobreviver. O caso deles é muito raro porque são da mesma placenta, de sexos diferentes, com o mesmo tipo de sangue do meu e são univitelinos” explica o pai. 
O caso de Ruhama intriga a medicina. Segundo a estudante de medicina, Acynelly Dafne, ela poderia ser diagnosticada com a síndrome de Escobar, que é determinada geneticamente, com características físicas e ortopédicas marcantes. No entanto, segundo Haroldo, os pacientes que portam a síndrome apresentam o cérebro totalmente formado, que não é o caso de Ruhama. Em relação à microcefalia, a estudante explica que esse termo refere-se ao tamanho da cabeça, determinado a partir da medida do perímetro cefálico, que é comparado a uma média esperada para a idade e o sexo da criança. “Apesar de ser uma medida da caixa craniana e não de seu conteúdo, ela comumente está associada a cérebros pequenos e danos cerebrais” esclarece Acynelly
É como uma lâmpada que sempre acendeu e um dia descobre-se que ela não tinha nenhuma ligação de energia.
“É muito complicado até quando os médicos nos explicam. Ela não tem bulbo, mas interage. É como uma lâmpada que sempre acendeu e um dia descobre-se que ela não tinha nenhuma ligação de energia. Ou seja, o diagnóstico é que não há diagnóstico” completa Haroldo. 
Quando os gemêos nasceram, em 2011, a família viveu momentos de apreensão. O Rio Grande do Norte sofria com uma das maiores greves de médicos da história e portanto, não haviam médicos para acompanharem o tratamento de Ruhama, que havia nascido com 1,700kg. Com os dois récem nascidos, Haroldo e Maricelma venderam a casa em que moravam e foram para São Paulo a bordo de um Opala 1987. 
Foi a única solução que nós encontramos
“Foi a única solução que nós encontramos” afirma Maricelma. Haroldo conta que gastaram todo o dinheiro com o tratamento de Ruhama, mas eles não poderiam ficar em São Paulo devido a altitude, que prejudicava o tratamento da menina. O casal então voltou para Caicó, cidade natal de Maricelma, onde tentaram fazer uma rifa de um carro, mas foram impedidos pela Promotoria. Rafael Anjos, estudante de Direito, explica o que possivelmente aconteceu nesse caso. “A rifa não é um crime, mas uma contravenção penal por ser considerada um jogo de azar”. 

Na época a família ficou revoltada porque os médicos não tinham um diagnóstico e o dinheiro era pouco. “Fomos para Salvador, depois para Fortaleza e foi lá onde eu vi um jornal com uma reportagem com uma menina grávida muito bonita e foi quando eu comecei minha luta contra o aborto”. conta Haroldo. 
A história do casal ganhou destaque internacional na última Jornada Mundial da Juventude, realizada em julho de 2013 no Rio de Janeiro. No dia 27 de julho, após participarem de uma celebração que reuniu bispos, sacerdotes e religiosos, o casal conseguiu a benção do papa Francisco. Haroldo conta que ele foi decido a pedir interferência do pontífice para que a presidenta Dilma Rousseff vetasse o projeto de lei  PLS 236/2012 que permite o aborto de fetos com má-formação ou anencefalia. 
Estou cansado de ouvir sentenças de morte.
Desde então a luta em prol da vida e dos deficientes só aumentou. “Estou cansado de ouvir sentenças de morte. Precisamos mostrar à sociedade o quanto eles são felizes e são capazes. Muitas vezes procuramos problemas para reclamar e temos depressão por isso. Eles tem depressão quando nos veem reclamando, mesmo sendo perfeitos” desabafa Haroldo. 

Hoje a família sobrevive com a renda que Haroldo tira da carpintaria e de palestras que ele ministra eventualmente. Além disso, o Provida os ajuda em momentos de dificuldade e Ruhama recebe um apoio financeiro de um salário mínimo do governo. Diariamente Haroldo apresenta um programa matinal na rádio comunitária Litoral Norte FM onde fala de assuntos religiosos. 

* Matéria escrita por Marina Cardoso e Luana Bittencourt, estudantes de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). 

"Foca na sexta" do blog GT: Jor

Já está no ar o primeiro texto da sessão "Foca na sexta" do blog GT: Jor, do jornalista Gabriel Toueg. Tive o prazer de estrear o espaço com um texto sobre blogs que facilitam a vida dos iniciantes no jornalismo

Se você é estudante
 ou recém-formado em jornalismo e quer ter a maravilhosa experiência de produzir um texto sob orientação de quem já tem experiência no assunto, fique ligado! A sessão vai ao ar toda sexta feira e para participar basta seguir as instruções de envio clicando aqui.

Ver a banda passar

Outro dia vi aqui uma frase do Joel Siveira que dizia: “Jornalista não é aquele que toca na banda, é aquele que vê a banda passar”.Então, fiquei me perguntando qual seria a postura correta que eu (aspirante a jornalista) deveria adotar frente às manifestações que andam acontecendo no Brasil. Como iria falar de uma banda sem nem ao menos saber quais instrumentos ela utiliza? Como compreenderia seu show se não soubesse seu repertório? Decidi contrariar o Joel. Assumi o meu lugar na banda e fui para a rua também, achando que assim (e somente assim) conseguiria entendê-la.

Cheguei sem saber muito como fazer, mas fui no ritmo, tentando encontrar uma sincronia quase perfeita. Aos poucos, comecei a entender como ela (a banda) se movimentava. Qual era a vibração dos outros participantes, por que estavam ali, como escolhiam a maneira de fazer seu som. Ao mesmo tempo, também tratava de dar a minha melhor contribuição. Entrei na coreografia e entoei o repertório como qualquer outro participante experiente. Não era tão difícil e não demorou muito para perceber que seria fácil fazer parte da banda.

Então, percebi que deveria recuar. Abandoná-la seria a solução mais sensata. Foi quando entendi que o meu lugar não era lá na banda e sim na plateia. E o meu dever não era tocar e sim contar aos outros como a banda tocava.  

Joel estava certo, afinal.

  
Foto: #RevoltaDoBusão, em Natal/ RN. 

Cidade cinza

Melancólica. Congestionada. Fria. Seca. Barulhenta. Poluída. Cinza.
Definitivamente, esse não pode ser teu retrato. Tens mais, muito mais que isso!  

O teu cinza, cidade, colore. Enche de graça até os que mal te conhecem. És cordial, amável e respeitosa. Sabe exatamente como conquistar quem vem conhecer-te. Tens sorrisos belos, capazes de silenciar tudo o que há de imperfeito.

Teu ritmo é perfeito. Tem vida. Pulsa forte. Apaixona. Esquenta.  


Nem bem cheguei e já sinto saudade por ter de deixar-te.  
O teu cinza, cidade, me coloriu. Obrigada. 



Foto tirada pelo Gabriel Toueg, morador da cidade cinza. 

Boate Kiss


Como não se comover em meio à tamanha tragédia?  Não me lembro de me sentir tão mal depois de um infortúnio como esse.  É inevitável não me colocar no lugar de tantos jovens, que assim como eu, acabaram de entrar em uma Universidade, cheios de vontade e esperança.

Foi uma noite estranha. Sonhos me perturbaram quase a noite toda. E mesmo sem conhecer uma só pessoa que estava naquela boate, a tristeza assola a todos aqui em casa.

Acabo de completar 18 anos, a idade em que algumas portas se abrem com mais facilidade e sem a restrição de anos passados. Imagino quantos, assim como eu, estavam tentando entrar em uma boate – para maiores de idade - pela primeira vez e não puderam contar essa experiência para ninguém.  Imagino pais, que nem sabiam que seus filhos estavam lá. Imagino irmãos, que estavam juntos, mas no desespero se separaram para sempre um do outro. Imagino amigos, que deixaram de consumir um belo drink, para consumir o amargo sabor da fumaça tóxica alastrada por todo canto. Imagino familiares, procurando qualquer sinal de vida nos hospitais, sem sucesso. Imagino tantas outras situações que só me angustiam ainda mais.

Com certeza, as perdas não se resumem a 231 mortos. Afinal, duzentos e trinta e um destinos deixam de existir. Futuros médicos, agrônomos, pedagogos, engenheiros, terapeutas, enfermeiros...  que trabalhariam em benefício de todos nós, tiveram sua vida arrasada pelo fogo.  

Poderia ser eu. Poderia ser minha irmã. Poderia ser você. Não foi. 
Mas, que pelo menos isso sirva de alerta para o quanto nossa vida é frágil. 


Acompanhe: http://glo.bo/Uvdt0V

Reduzir para aumentar?


Nesta quarta-feira, 23 de janeiro, a Dilma Rousself veio a público durante o horário nobre para anunciar "uma forte redução na conta de luz de todos os brasileiros", disse ela.

A proposta que promete reduzir algumas cifras de reais na conta de luz das residências, assegura uma queda de 18%, podendo chegar a 25,94% já no primeiro mês de funcionamento. Muito bom, se não fosse um grande paradoxo que parece passar despercebido diante às alfinetadas da Presidenta aos pessimistas.

Explico: Um dos planos de governo da mesma presidenta também envolvia medidas ambientais acentuadas a fim de frear as emissões de poluentes no Brasil, principalmente aquelas provenientes do setor energético, dando assim continuidade ao Programa de Incentivo as Fontes Alternativas (o PROINFA) iniciado em 2004, ainda na gestão do seu então companheiro de partido, Lula. O programa, como o próprio nome faz referência, deveria incentivar novas alternativas na tentativa de diversificar a matriz energética brasileira. O que na prática, está longe de se tornar realidade. 

A conta é simples:

Com uma proposta imponente de não ao racionamento e “dobrar, em 15 anos, nossa capacidade instalada de energia elétrica, que hoje é de 121 mil megawatts”, de fato "Somos agora um dos poucos países que está, ao mesmo tempo, baixando o custo da energia e aumentando sua produção elétrica.". No entanto, reduzir para aumentar não parece fazer muito sentido, muito menos ser um discurso sustentável. E não para por aqui. Isso porque a redução pode chegar a 32% na conta da indústria e agricultura, vulgo as principais usuárias do sistema elétrico brasileiro e também principais geradoras de impactos ao meio ambiente.

O que assusta nisso tudo é que o Brasil ainda apresenta uma matriz energética cujo apenas 6,9% de sua energia elétrica é gerada a partir de fontes de energia alternativas e limpas (como a eólica, a solar e a biomassa), de acordo com o último levantamento realizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) ainda nesse mês de janeiro. Ou seja, de 2004 para cá - quando o PROINFA entrou em ação - a representatividade das Fontes Alternativas ainda é muito baixa diante da gigante Hidroenergia, que atualmente responde por 65,95% de nossa produção energética e das sempre atuantes Termoelétricas,  responsáveis por 27,15% de toda energia produzida no país.

 Os impactos das duas maiores fontes de energia do nosso país são inúmeros, não só no quesito das emissões de gases do efeito estufa (as hidrelétricas pela decomposição de matéria orgânica submersa durante a construção das barragens de contenção da água ou as termoelétricas pela queima de carvão e gás), mas também pelo fato de existir toda uma questão socioambiental envolvida que contribui negativamente para a sustentabilidade delas.

É claro que diante de países que utilizam as problemáticas usinas nucleares e térmicas, estamos muito confortáveis. Mas, aceitar que o governo terá um gasto de 8,46 bilhões de reais (que no final de tudo serão pagos pelo contribuinte) só para conseguir manter essa redução, é bem triste. Ainda mais sabendo que esse dinheiro poderia ser revertido no investimento real do setor eólico, por exemplo.


Por que o eólico? Além de ser uma atividade de baixo risco e interferência (ambiental e social), a energia eólica reduz por si só a conta de luz, devido à eficiência concentrada na geração de energia. E como se não bastasse, a ANEEL divulgou em seu último Atlas o potencial eólico brasileiro: 126,5GW. Ou seja, 126500 Megawatts poderiam ser gerados a partir da força dos ventos, no entanto atualmente apenas simbólicos 456,2MW são aproveitados. Sem falar que muitas usinas não passam de projetos pilotos ou simplesmente não funcionam. Exemplo disso é o que acontece em vários municípios do Rio Grande do Norte, que poderá se tornar até o final de 2014 o maior produtor de energia eólica do país, desbancando o Ceará. O município de Parazinho, situado a 113 km da capital potiguar, possui diversos parques eólicos, cada um com mais de 100 aerogeradores, mas que ainda encontram-se parados. Alguns por falta de incentivo, ou por conta da burocracia. Alguns pelos desafios encontrados na rede de distribuição. Entre outros fatores, não tão recorrentes nas hidrelétricas.

Enquanto isso, o governo continua insistindo nos problemas de desapropriação de terras - muitas vezes, indígenas - para a construção de UHE*, investindo em termoelétricas com matéria prima fóssil, e deixando de lado um compromisso com desenvolvimento verdadeiramente sustentável. 

Será mesmo queTodos, sem exceção, vão sair ganhando.” ?

*UHE: Usinas hidrelétricas


Um metalinguístico solitário.


É unânime. Ao menos, penso que seja.  As primeiras palavras de um texto são sempre as mais difíceis de serem escritas, ainda mais se tratando dos primeiros parágrafos profissionais de fato. Há todo um nervosismo pré-textual fomentado pela necessidade de fazer-se entender apenas com algumas palavras posicionadas numa ordem que você julga ser a correta, ou ao menos a mais conveniente. Atingir e transformar alguém não é tarefa fácil e está longe de ser, afinal quando se escreve para o outro, um mundo de possibilidades e interpretações se abre, - inclusive aquela que pode distorcer completamente uma pauta mal planejada –. No entanto, desde a primeira palavra, a singularidade das pessoas e a forma como cada um poderá interpretar um texto devem nos instigar intensamente a fazer sempre o melhor.

   Sair de um primeiro parágrafo é sempre um alívio, afinal parece que a partir daqui o texto finalmente assume a fluidez desejada., onde toda a densidade parece ir se dissolvendo a cada nova linha, tomando enfim um ritmo esperado desde o princípio. Ideias vão aparecendo e parece ser pouco um só teclado para a rapidez com que se passa a escrever. Nessa hora, é de se imaginar a agonia dos escritores, sentados diante de suas máquinas de escrever, tendo que digitar tudo sem a opção de deletar determinadas vogais ou engolir algumas consoantes. Mesmo assim, apesar de toda malemolência conquistada, a ansiedade da compreensão ainda atormenta. Será que um terceiro parágrafo é merecido? Ou devo segurar firme o BACKSPACE a fim de apagar qualquer rastro de texto iniciado?

   Decidir dar o merecimento, mesmo que este seja duvidoso, é uma opção corajosa. É acreditar na consistência do texto e no interesse maciço que ele poderá vir a causar nas pessoas. Enfim, quatro parece ser um bom número e sem muito hesitar deve-se seguir em frente rumo à aguardada conclusão.

   No entanto, concluir também é complicado. Resumir tudo aquilo já dito em um único parágrafo e ainda demonstrar que valeu a pena servir-se de tantas linhas é quase como vender uma sardinha e ter de prepará-la como um suculento salmão. É nessa hora também que se torna perceptível o tempo dedicado à produção de um texto que pode ou não atingir sua intenção comunicativa. Nada me parece fácil. Mas, quem disse que gostaria que fosse?  

Entrevista com Paulo Guilherme "Pinguim"


Hoje o Óbvio e Atual apresenta uma entrevista com o diretor de um projeto que vem revolucionando o conceito de mergulhar (Onda Azul) e co-fundador do projeto Divers for Sharks, que atua na preservação dos tubarões através de mobilizações sociais.  Estou falando de Paulo Guilherme, ou melhor: Pinguim. Um instrutor de mergulho que não se contentou apenas em usar o mar. Virou ativista e hoje é um dos grandes nomes na área da preservação dos tubarões e da biodiversidade marinha em geral. Além de nos apresentar um pouco mais seus projetos e passar uma bela mensagem a todos nós, a entrevista ainda está cheia de declarações ao meio ambiente que nos faz refletir muito sobre nossas ações frente às discussões ambientais. 


Óbvio e Atual - Para começar, gostaria que se apresentasse melhor. Conte-nos um pouco da sua vida e de alguns momentos que te marcaram durante esses anos. 
Paulo Guilherme “Pinguim” - Nasci no Rio de Janeiro, mas nas duas primeiras décadas de vida morei no Rio, São Paulo, Minas Gerais, Recife (na época que era equilibrado e não tinha risco nenhum de ataque) e Manaus. Em Manaus conheci o então magnífico e até hoje lendário Calypso*, capitaneado pelo ícone maior do mergulho Capitão Cousteau! Apertar a mão dele na época só não foi emoção maior do que é lembrar hoje do momento. Quando criança tinha asma num grau muito elevado. Risco de vida mesmo... por causa disso fiz natação por diariamente quando criança mais ou menos dos 4 aos 6, mesmo no inverno de Minas Gerais.... Provavelmente daí veio a intimidade com a água, que acabaria me tornando mergulhador no futuro. Me dedicar a atender da melhor forma possível ao cliente mergulhador e ao aluno sonhador de um curso de mergulho. Ser guia ou instrutor de mergulho significa servir. Sim, pois são serviços que devem ser prestados da melhor forma por um profissional qualificado. Se existe um segredo para o sucesso da minha carreira e prêmios nacionais e internacionais recebidos, é este: saber servir e me dedicar de corpo e alma a isto!

Quando estou dentro d’água, ao submergir meu rosto, seja no oceano, rio, lago ou piscina, fecho os olhos por uns segundos, inspiro e exalo lentamente algumas vezes seguidas.... É como se a vida fora d’água deixasse alguma forma terra nos meus pulmões. Neste momento sinto como se me livrasse disso, literalmente me liberando do vínculo com a terra e entregando não só de corpo mas também de alma aos oceanos, sua energia, vida e regras.

 Óbvio e Atual -  Instrutor de mergulho, fotógrafo e cinegrafista subaquático. Quando e como o fundo do mar passou a te encantar tanto ao ponto de você dedicar uma carreira bastante sólida ligada a ele?
Paulo Guilherme “Pinguim” - Lembro até hoje de meu pai, não consigo precisar com que idade, me ensinava a nadar, com bóias de braço em piscina de criança. Sempre me vem à cabeça ele falando “Calma, basta fechar a boca e não se afobar. Não se afoba, não se afoba”... Um dia ele me jogou na água com as bóias no braço, eu boiei e fiquei com os braços para cima ao cair na água. Foi o que bastou para as bóias serem ejetadas e eu ir para o fundo da piscina... Arregalei os olhos, olhei para cima... fechei a boca e tentei não me afobar. Aí bati os braços para a superfície e de lá para a borda da piscina. Meus olhos só não deviam estar mais arregalados do que os do meu pai. Após respirarmos, ele me falou: “viu só? Não se afobou então consegui nadar”. Daí em diante começou a se gostoso abrir os olhos embaixo d’água e “tentar ficar lá”... Durante o primeiro grau na escola, com alguns amigos começamos a fazer mergulhos em apnéia e daí a curiosidade para o mergulho autônomo foi um pulo.... E uma vez tendo respirado ar comprimido no fundo do mar, nunca mais parei e lá se vão praticamente 7 mil mergulhos.

“Viu só? Não se afobou, então consegui nadar”. Daí em diante começou a se gostoso abrir os olhos embaixo d’água e “tentar ficar lá”...

Óbvio e Atual -  Quando estive com você, no Congresso Nacional do Meio Ambiente em Poços de Caldas (MG), você me disse que o ativismo ambiental era uma necessidade pessoal. Por quê? 

Paulo Guilherme “Pinguim” - Minha relação com o mar, sua natureza e habitantes é mais que uma paixão, é amor mesmo. Amor na mais pura forma que consigo pensar, do tipo que somente consigo pensar descrição como nos poemas de Carlos Drummond de Andrade, Thiago de Mello ou Paulo Cesar Pinheiro (este em Clave de Sal).


Por alguns anos durante minha adolescência e juventude, me contentei simplesmente e ir ao mar, visitar, curtir, estar, enfim usar o mar. Porém após começar a ver, infelizmente, a degradação que acontece em escala talvez industrial elevada à exponencial, torna-se inevitável lutar para defender e preservar o local onde “nos sentimos bem e queremos estar”, certo?



E com o tempo, esta defesa acabou se tornando cada vez mais presente na minha vida, sem me dar conta, uma dependência mesmo. Porém uma dependência boa, pura e sem esperar nada em troca. Vontade de querer fazer o bem e estar junto, abrindo mão de você mesmo e até se colocando em risco, em prol deste. Só conheço uma experiência semelhante: amor.

Óbvio e Atual -  Como diretor do Centro de Estudos do Mar Onda Azul e co-fundador do Projeto Divers for Sharks, fale um pouco desses seus projetos e os seus objetivos alcançados e almejados.
Paulo Guilherme “Pinguim” - O Centro de Estudos do Mar Onda Azul é um sonho, nada melhor para defini-lo. Começou como o sonho de poder trabalhar e me sustentar com dois amores: mergulhar e ensinar. Hoje em dia, em função de problemas sérios no mercado de mergulho e políticas nacionais autodestrutivas, isto está cada vez mais difícil e o Centro de Estudos do Mar Onda Azul vive reais dificuldades e mais uma vez voltou a viver no campo dos sonhos. O sonho de sobreviver. Mas isto profissional e economicamente falando. Já no lado ambientalista voluntário o que não falta é trabalho, causas em aberto, lutas em andamento e necessidades.... Infelizmente um fato é que para cada 100 causa que nos envolvemos, provavelmente apenas UMA gera resultado positivo. Isto pode ser muito frustrante, mas ao mesmo tempo ainda mais motivante para seguirmos em frente. A forma de se conseguir mais resultados positivos é muito simples e óbvia: Mais recursos. Simples assim. Tanto recursos financeiros como humanos.

“No lado ambientalista voluntário o que não falta é trabalho, causas em aberto, lutas em andamento e necessidades....”

Óbvio e Atual -  Aproveite para deixar um recado a todos que se interessaram pelo seu trabalho e que desejam participar dos seus projetos. 
Paulo Guilherme “Pinguim” - Algumas pessoas acham que é uma opção ser um ativista, e para alguns é uma questão mais filosófica, para ficar sendo debatida em assembleias, academias ou fóruns multidisciplinares. Mas a verdade é bem outra
Não se “vira” um ativista, o que acontece é que se DEIXA DE SER UM PASSIVISTA


http://diversforsharks.com.br/site/
E deixar de ser passivista não significa ir para o meio do mato, defender uma floresta ou para o mar, lutar contra a pesca predatória. Sim, claro que isto é muito importante! Deixar de ser passivista também significa apoiar, dar suporte e financiar estas ações. Por isso que as lutas ambientais não vão para frete. A sociedade vê os problemas, sabe o que tem que ser feito mas pensa: “Ah não, isto é muito perigoso” ou então “eu não tenho talento para ir lá e defender”, então muda de canal ou simplesmente clica em curtir no facebook. É preciso mais que isso. Se envolver, ajudar, contribuir, doar.... Se você não quer mais ser um passivista entre em contato comigo e vamos ver a melhor, mais efetiva e gratificante forma de agir! Contatos podem ser feitos pela nossa página facebook.com/diversforsharks ou diretamente comigo através do e.mail pinguim@ondaazul.com.br E vamos que vamos!

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* Calypso: Conhecido navio oceanográfico.



Direto da Palestina com Sandra Guimarães



É óbvio que... Antoine De Saint Exupery  estava certo quando disse que "A verdadeira solidariedade começa onde não se espera nada em troca."
ATUAL: O que motiva uma pessoa à abrir mão de sua faculdade de Linguistica em Paris e se dedicar ao trabalho voluntario na Palestina, região situada no Oriente Médio, numa tensa zona de conflito, a não menos de 8473 mil quilometros de distancia do Brasil, alvo de inúmeros ataques terroristas e com suas fronteiras controladas por Israel.? 
    Com uma população de aproximadamente 4 milhões de pessoas, não é díficil de imaginar que a Palestina sofre com sérios problemas sociais, econômicos e políticos. 
   Acredite ou não. Esse lugar conquistou Sandra Guimarães, que atualmente luta para melhorar a qualidade de vida das pessoas que involuntariamente são vitimas desses conflito. 
A entrevista que você vai ler a seguir é um exemplo puro de solidariedade. Conheça agora a Sandra Guimarães,  uma brasileira nascida em Natal (RN) que vive no exterior desde 2002 e teve sua vida completamente transformada. 


@obvioeatual : Diga-nos cinco coisas que precisamos saber sobre você.  
Sandra Guimarães: Tento deixar meus princípios e valores morais guiarem as escolhas que faço, dia após dia. Por isso (1) sou vegana, (2) não bebo álcool, (3) uso meu tempo e minha energia para tentar transformar o mundo em um lugar mais justo, (4) escolhi um trabalho que me desse a oportunidade de ajudar as pessoas e os animais, além de preservar o meio ambiente, e (5) me esforço para “ser a mudança que desejo ver no mundo”, como Gandhi nos aconselhou. 

 @obvioeatual : De estudante de linguistica em Paris, para ativista na Palestina. Quando, como e por que você decidiu seguir esse caminho? 
Sandra Guimarães: Me formei em julho de 2007. Eu adorava, e ainda adoro, linguística, mas a idéia de ser professora nunca me encantou. Acabei abandonando o mestrado dois meses depois de ter começado para seguir minha verdadeira vocação: culinária vegana. Foi nesse momento que a Palestina entrou na minha vida. Cresci ouvindo falar no assunto mas nunca entendi exatamente o que acontecia nessa parte do mundo. Um dia comprei uma revista de antropologia dedicada à Palestina e tudo, desde a origem do conflito até a vida na Palestina nos dias de hoje, estava explicado de maneira clara, com muitas fotos e mapas. Quando terminei de ler a reportagem entrei em um estado de choque que durou meses. Em dezembro de 2007 decidi visitar a Palestina. Passei três semanas passeando e fazendo trabalhos voluntários. As coisas que vi aqui me marcaram tanto que percebi que seria impossível voltar para casa e continuar com a minha vida de antes. Foi então tomei a decisão mais inusitada da minha vida : me mudei para a Palestina e comecei a trabalhar como voluntária nos campos de refugiados.

@obvioeatual : Que tipo de atividade você realiza na Palestina? 
Sandra Guimarães: Organizo oficinas sobre higiene buco dental para crianças nos campos de refugiados de Belém e, quando posso, levo-as ao dentista¹. Dou palestras nos centros culturais dos campos sobre saúde e nutrição, com foco na prevenção (e tratamento) do diabetes, hipertensão e obesidade. Coordeno um projeto que ajuda mães de crianças deficientes a ter uma fonte de renda e melhorar as condições de vida dessas crianças, também nos campos de refugiados². Quando vou ao Brasil procuro informar as pessoas sobre a verdadeira face da ocupação israelense na Palestina através de palestras e debates.  Paralelo a isso tudo, dou aulas de culinária vegetal, ensino Francês e mantenho um blog de cozinha vegana.

¹ Eu (na frente, de mãos dadas com duas crianças) e um grupo de crianças do campo de refugiados de Aida. Essas crianças participaram de uma das minhas oficinas de higiene buco dental e, com ajuda financeira de alguns amigos, pude levar todas ao dentista. Na foto estamos voltando de um passeio que organizei para elas. (Clique na imagem para ampliar)








²  Oficina de pintura para crianças deficientes. Essas oficinas são realizadas para os filhos das mulheres que participam do projeto que ajuda mães de crianças deficientes a ter uma fonte alternativa de renda. (Clique na imagem para ampliar)





@obvioeatual : Sobre o seu trabalho na Palestina, quais são os seus objetivos?
Sandra Guimarães: Eu vim morar na Palestina por dois motivos. Primeiro para mostrar solidariedade a esse povo tão sofrido. Segundo para testemunhar a realidade nesse país e contar ao maior número possível de pessoas o que está acontecendo aqui. Sei que sozinha não posso acabar com as injustiças das quais o povo palestino é vítima há mais de 60 anos, mas estou fazendo o que posso para ajudá-los. É aquela velha história do beija-flor tentando apagar sozinho o fogo na floresta: estou fazendo a minha parte. Não acabei com a ocupação, mas acredito que meu trabalho nos campos melhorou a vida de muita gente e graças às palestras que dei no Brasil várias pessoas ficaram sabendo da verdade sobre o conflito. Sei que minha contribuição é modesta, mas fazer pouco é melhor que não fazer nada.

@obvioeatual : Quais são suas maiores dificuldades?
Sandra Guimarães: A primeira coisa que me vem à mente quando penso nas dificuldades é conseguir visto para ficar aqui. Israel controla a entrada e saída de todas as pessoas (palestinos ou estrangeiros) na Palestina e viver e trabalhar aqui às vezes é uma missão impossível. A segunda maior dificuldade é a falta de apoio financeiro. Faz três anos que trabalho como voluntária e boa parte dos projetos que fiz nos campos foram financiados com meu próprio dinheiro e doações da alguns amigos próximos. Hoje sou obrigada a trabalhar menos nos campos e mais fora deles (dando aulas de culinária e francês) para poder pagar as contas. Mas talvez o pior de tudo seja esse sentimento de impotência e frustação que me acompanha permanentemente. É doloroso ver injustiças diariamente, como roubo de terras, destruição de casas, prisão de inocentes (às vezes crianças), assassinatos à sangue frio sem que nunca os assassinos sejam punidos, e não poder fazer nada. Pior ainda: ler um jornal no Brasil (ou na Europa) e descobrir que, por causa do poderoso lobby sionista, essas vítimas são descritas como os culpados da história. Isso é o mais difícil para mim. 

Essa foto foi tirada por Anne Paq (annepaq.com) , durante uma outra manifestação pacifica. Os soldados israelenses lançaram tantas bombas de gás lacrimogêneo nos manifestantes que esse senhor palestino quase morre sufocado. Cheirar álcool ajuda um pouco a respirar no meio de uma nuvem de gás e como a ambulância demorou para chegar aonde estávamos (os soldados israelenses estavam atirando nas pessoas), tive que prestar os primeiros socorros a esse pobre idoso, no campo, atrás de um muro de pedras. 
Outra foto feita por Anne Paq (annepaq.com)  durante uma manifestação pacífica contra a ocupação militar, na cidade palestina de Bil'in. (Você me achou na foto? Estou de óculos escuros.) As manifestações, ou todo tipo de protesto, aqui são violentamente reprimidas pelo exército israelense. Palestinos e estrangeiros caminham em cidades palestinas, armados somente de coragem, para protestar contra o roubo de suas terras pelo governo israelense. Os manifestantes são recebidos com granadas de som, bombas de gás lacrimogêneo e tiros. Centenas de pessoas foram feridas e muitas perderam a vida nessas passeatas, sem contar todos os palestinos presos por terem cometido o crime de protestar contra as injustiças das quais são vítimas. As pessoas estão cobrindo a boca e nariz para se proteger do gás lacrimogeneo, que é tão forte que pode matar (sufocamento). 

Para saber mais sobre Sandra Guimarães e sobre a Palestina, confira alguns artigos que ela já publicou na web ou então mande um email para a Sandra (noticiasdapalestina@gmail.com) para receber newsletters com informações de lá.